Participante da COP30 detona Brasil e diz que reclamações “entram por um ouvido e saem por outro”

Após mais uma rodada de questionamentos sobre os custos da COP30, o Brasil voltou ao centro das críticas na ONU. Durante reunião do bureau realizada na última sexta-feira (22), em Nova York, o representante do Panamá, João Carlos Monterrey, que também preside o colegiado, fez duras declarações sobre a postura do governo Lula diante das reclamações internacionais.

Participante da COP30 detona Brasil e diz que reclamações “entram por um ouvido e saem por outro”
Publicado em 25/08/2025 às 9:42

Após mais uma rodada de questionamentos sobre os custos da COP30, o Brasil voltou ao centro das críticas na ONU. Durante reunião do bureau realizada na última sexta-feira (22), em Nova York, o representante do Panamá, João Carlos Monterrey, que também preside o colegiado, fez duras declarações sobre a postura do governo Lula diante das reclamações internacionais.

“Estou absolutamente surpreso e, sinceramente, confuso com o fato de que, pela terceira vez neste Bureau, todas as regiões do mundo falaram com uma só voz à presidência brasileira e, mesmo assim, nossas palavras parecem entrar por um ouvido e sair pelo outro”, escreveu Monterrey em suas redes sociais logo após o encontro.

As críticas giram em torno dos altos preços cobrados em Belém, sede escolhida para a COP30. Delegações estrangeiras apontam que as diárias chegam a US$ 350 (cerca de R$ 1,9 mil) e, em muitos casos, a hospedagem oferecida não é em hotéis, mas em residências particulares. Além dos valores, há preocupação com a quantidade de vagas disponíveis para receber participantes de mais de 190 países.

Essa já foi a terceira vez em que representantes brasileiros precisaram apresentar explicações formais. O governo informou que respondeu a 48 perguntas durante a reunião. Em entrevista coletiva, a secretária da Casa Civil, Miriam Belchior, avaliou que “a temperatura tinha baixado” em relação às pressões anteriores.

Entretanto, a fala de Monterrey indicou o contrário. Ele reforçou o incômodo com a condução brasileira do tema e subiu o tom: “É como se estivéssemos vivendo em uma realidade paralela toda vez que participamos dessas reuniões. Além disso, nosso tempo está sendo desperdiçado, e estamos sendo feitos de tolos.”

Ao final, o representante panamenho revelou ter solicitado à ONU que avalie formalmente a possibilidade de mudar a sede da conferência, hoje prevista para ocorrer em Belém.

“Estou completamente perplexo e, francamente, confuso que, pela terceira vez neste Bureau, todas as regiões do mundo tenham falado com uma só voz à Presidência brasileira que está assumindo, e ainda assim nossas palavras parecem entrar por um ouvido e sair pelo outro. Parece que estamos vivendo em uma realidade alternativa toda vez que participamos dessas reuniões. Não só isso, nosso tempo está sendo desperdiçado, e estamos sendo feitos de tolos.

Mais de 70% das delegações não reservaram acomodação. Esse único número diz tudo: os arranjos atuais são impossíveis. As opções estão 200 a 400% acima do subsídio diário das Nações Unidas, e simplesmente não são viáveis.

Isso não se trata apenas de quartos de hotel. Trata-se de saber se levamos a sério este processo internacional. Se nos respeitamos mutuamente. Se nos respeitamos a nós mesmos. No momento, não estamos fazendo nada disso.

As delegações, em todas as regiões, estão sendo solicitadas a pagar taxas exorbitantes e não reembolsáveis sob pacotes rígidos que não podem ser modificados. As faturas devem ser pagas em três dias, independentemente dos processos de aprovação nacionais. As informações chegam de forma fragmentada, as delegações estão dispersas, a coordenação é impossível. Isso não é um simples contratempo logístico. Isso é insano e insultante.

Uma pesquisa conduzida pelo Secretariado de Mudanças Climáticas da ONU confirmou o que já sabíamos: o desconforto e a frustração são esmagadores. Como vice-presidente do Bureau, peço ao Secretariado que forneça aconselhamento formal e por escrito sobre alternativas e o processo pelo qual este Bureau pode solicitar formalmente à Presidência da COP a mudança da cidade-sede. Porque não podemos sediar uma COP em condições que excluem a participação e violam os princípios centrais do multilateralismo. Viemos aqui para construir confiança e soluções. Em vez disso, estamos recebendo desculpas e absurdos.”