Nova fase da Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do PCC no crime organizado


Uma fintech apontada como um dos principais “dutos financeiros” no esquema do Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavar dinheiro da sonegação de impostos no setor de combustíveis movimentou R$ 1,2 bilhão, segundo investigação do Ministério Público de São Paulo.
A Smart Solutions estava entre os alvos nesta quinta-feira (28) da Operação Fluxo Oculto, que é uma continuação da Operação Carbono Oculto, realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Receita Federal para apurar a chamada “máfia de nafta”.
Foram cumpridos cerca de 60 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
Segundo o Gaeco, a Smart Solutions fazia parte de um sofisticado sistema de movimentação financeira usado para ocultar a origem do dinheiro, dificultar o rastreamento bancário e blindar patrimônios ligados à organização criminosa.
Entre 2022 e 2025, somente com o BK BANK as operações chegaram a R$ 1,2 bilhão. Em nota, a defesa do BK BANK afirmou que nem a empresa, “tampouco quaisquer de seus gestores, foram alvo de mandados de busca e apreensão ou de qualquer medida executada na operação”.
O esquema funcionava por meio de fintechs e instituições de pagamento usadas como intermediárias para movimentar dinheiro de dezenas de empresas investigadas, especialmente ligadas ao setor de combustíveis.
Uma dessas empresas é a própria Smart Solutions, criada em 19 de junho de 2020. Os sócios da fintech são alvo da investigação, sendo eles: Renato de Souza Elbert, Juliana de Almeida Martins, Mauricio Paulo Matalon, Muriel Matalon e Michele Matalon. A sede da empresa, segundo as informações cadastrais, estaria localizada na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, área nobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
A investigação aponta que a principal beneficiária das operações realizadas pela Smart Solutions foi a GGX Global, empresa ligada à rede de postos de combustíveis investigada na operação Carbono Oculto. Segundo o MP, a GGX movimentou cerca de R$ 500 milhões dentro da estrutura financeira monitorada.
Os promotores afirmam que o grupo utilizava um modelo conhecido como “contas bolsão”. Na prática, recursos de diferentes clientes eram concentrados em contas registradas em nome das próprias fintechs. Externamente, as transações apareciam apenas vinculadas à instituição financeira, enquanto os reais destinatários ficavam ocultos nos sistemas internos das empresas.
Segundo os investigadores, isso criava múltiplas “camadas de ocultação” e dificultava identificar quem enviava e quem recebia o dinheiro.
Além da Smart Solutions e do BK BANK, os investigadores identificaram outras fintechs operando dentro da mesma engrenagem financeira. Entre elas estão CEOPAG, America Payment, SISPAY, VPAY, YAW e SAFE SOLUTIONS.
O Ministério Público afirma que essas instituições compartilhavam clientes, fluxos financeiros e estruturas operacionais ligadas ao grupo investigado.
Os promotores afirmam ainda que parte das fintechs investigadas teria flexibilizado mecanismos internos de controle para ampliar a carteira de clientes, mesmo diante de indícios de irregularidades.
De acordo com o relatório do Gaeco, algumas instituições de pagamento atuavam com “arrefecimento dos sistemas de controle internos” e permitiam a contratação de clientes sem procedimentos adequados de compliance e verificação de identidade, conhecidos no mercado financeiro como “Know Your Customer” (KYC).
Para os investigadores, essa prática teria ocorrido “como forma de expandir o negócio de maneira acrítica e irresponsável, o lucro pelo lucro”, em um modelo que o Ministério Público compara ao conceito de “cegueira deliberada” — quando empresas ignoram conscientemente sinais de atividades ilícitas para manter operações lucrativas.
Para os promotores, o caso revela uma nova fase da infiltração do crime organizado no sistema financeiro. O relatório afirma que as fintechs passaram a funcionar como “dutos financeiros” de organizações criminosas, permitindo a circulação de grandes quantias sem os mesmos mecanismos de controle exigidos de bancos tradicionais.
Em alguns casos, segundo o Gaeco, as empresas apresentavam estruturas societárias consideradas incompatíveis com os valores movimentados, incluindo uso de “laranjas”, sedes modestas e sócios com baixa capacidade financeira aparente.
Os investigadores afirmam que o acesso às chamadas “contas gráficas” — os registros internos das fintechs — é considerado essencial para rastrear o caminho do dinheiro e identificar os verdadeiros destinatários dos recursos.




