Nova fase da Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do PCC no crime organizado

Nova fase da Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do PCC no crime organizado
Publicado em 29/05/2026 às 9:18

Uma fintech apontada como um dos principais “dutos financeiros” no esquema do Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavar dinheiro da sonegação de impostos no setor de combustíveis movimentou R$ 1,2 bilhão, segundo investigação do Ministério Público de São Paulo.

A Smart Solutions estava entre os alvos nesta quinta-feira (28) da Operação Fluxo Oculto, que é uma continuação da Operação Carbono Oculto, realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Receita Federal para apurar a chamada “máfia de nafta”.

Foram cumpridos cerca de 60 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Segundo o Gaeco, a Smart Solutions fazia parte de um sofisticado sistema de movimentação financeira usado para ocultar a origem do dinheiro, dificultar o rastreamento bancário e blindar patrimônios ligados à organização criminosa.

Entre 2022 e 2025, somente com o BK BANK as operações chegaram a R$ 1,2 bilhão. Em nota, a defesa do BK BANK afirmou que nem a empresa, “tampouco quaisquer de seus gestores, foram alvo de mandados de busca e apreensão ou de qualquer medida executada na operação”.

O esquema funcionava por meio de fintechs e instituições de pagamento usadas como intermediárias para movimentar dinheiro de dezenas de empresas investigadas, especialmente ligadas ao setor de combustíveis.

Uma dessas empresas é a própria Smart Solutions, criada em 19 de junho de 2020. Os sócios da fintech são alvo da investigação, sendo eles: Renato de Souza Elbert, Juliana de Almeida Martins, Mauricio Paulo Matalon, Muriel Matalon e Michele Matalon. A sede da empresa, segundo as informações cadastrais, estaria localizada na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, área nobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A investigação aponta que a principal beneficiária das operações realizadas pela Smart Solutions foi a GGX Global, empresa ligada à rede de postos de combustíveis investigada na operação Carbono Oculto. Segundo o MP, a GGX movimentou cerca de R$ 500 milhões dentro da estrutura financeira monitorada.

Os promotores afirmam que o grupo utilizava um modelo conhecido como “contas bolsão”. Na prática, recursos de diferentes clientes eram concentrados em contas registradas em nome das próprias fintechs. Externamente, as transações apareciam apenas vinculadas à instituição financeira, enquanto os reais destinatários ficavam ocultos nos sistemas internos das empresas.

Segundo os investigadores, isso criava múltiplas “camadas de ocultação” e dificultava identificar quem enviava e quem recebia o dinheiro.

Além da Smart Solutions e do BK BANK, os investigadores identificaram outras fintechs operando dentro da mesma engrenagem financeira. Entre elas estão CEOPAG, America Payment, SISPAY, VPAY, YAW e SAFE SOLUTIONS.

O Ministério Público afirma que essas instituições compartilhavam clientes, fluxos financeiros e estruturas operacionais ligadas ao grupo investigado.

Os promotores afirmam ainda que parte das fintechs investigadas teria flexibilizado mecanismos internos de controle para ampliar a carteira de clientes, mesmo diante de indícios de irregularidades.

De acordo com o relatório do Gaeco, algumas instituições de pagamento atuavam com “arrefecimento dos sistemas de controle internos” e permitiam a contratação de clientes sem procedimentos adequados de compliance e verificação de identidade, conhecidos no mercado financeiro como “Know Your Customer” (KYC).

Para os investigadores, essa prática teria ocorrido “como forma de expandir o negócio de maneira acrítica e irresponsável, o lucro pelo lucro”, em um modelo que o Ministério Público compara ao conceito de “cegueira deliberada” — quando empresas ignoram conscientemente sinais de atividades ilícitas para manter operações lucrativas.

Para os promotores, o caso revela uma nova fase da infiltração do crime organizado no sistema financeiro. O relatório afirma que as fintechs passaram a funcionar como “dutos financeiros” de organizações criminosas, permitindo a circulação de grandes quantias sem os mesmos mecanismos de controle exigidos de bancos tradicionais.

Em alguns casos, segundo o Gaeco, as empresas apresentavam estruturas societárias consideradas incompatíveis com os valores movimentados, incluindo uso de “laranjas”, sedes modestas e sócios com baixa capacidade financeira aparente.

Os investigadores afirmam que o acesso às chamadas “contas gráficas” — os registros internos das fintechs — é considerado essencial para rastrear o caminho do dinheiro e identificar os verdadeiros destinatários dos recursos.