Gás Natural, o verde que circula nos gasodutos do Ceará

Gás Natural, o verde que circula nos gasodutos do Ceará
Publicado em 18/05/2025 às 10:49

O biometano é uma das estrelas da transição energética – ou pelo menos essa é a teoria. Ele é uma alternativa renovável ao gás natural de origem fóssil. As moléculas são idênticas, o que significa que não são necessárias adaptações na infraestrutura de abastecimento ou nos motores.

Uma das principais fontes desse combustível verde, também chamado de gás natural renovável, são os aterros sanitários. Aproveitar o gás liberado pela decomposição da matéria orgânica também contribui para reduzir as emissões de gases de efeito estufa que causam o aquecimento global.

Como levar o produto da usina até os potenciais consumidores? A GNR Fortaleza, uma das maiores produtoras de biometano do país, conseguiu unir essas duas pontas. A companhia foi responsável por quase um terço do gás verde produzido no país no ano passado. Mais importante que este número, entretanto, é que esse volume tem destino.

Um gasoduto de 24 km construído pela Companhia de Gás do Ceará (Cegás) garante que o biocombustível da GNR dê conta de 15% do consumo de gás do Estado. Os compradores do combustível que vem do lixo incluem residências, hospitais, hotéis, indústrias e postos de combustíveis.

O biometano deriva do processo de limpeza e purificação do biogás, uma fonte de energia renovável gerada a partir da decomposição da matéria orgânica proveniente de propriedades rurais, lodos de esgoto, lixo doméstico e afluentes industriais. O biometano, portanto, é um combustível limpo que pode ser utilizado para uso doméstico, industrial ou veicular, substituindo os combustíveis fósseis.

O combustível é gerado no município de Caucaia, a 15 km da capital cearense. A conexão com a rede usada para o gás de origem fóssil faz da planta “um exemplo raro e promissor no Brasil, e até mesmo no mundo”, diz Ronaldo Stefanutti, professor do departamento de engenharia hidráulica e ambiental da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O que é o biometano
A produção do biometano na planta de Fortaleza começa com a coleta do biogás emitido durante a decomposição dos resíduos orgânicos acumulados em aterros sanitários ou lixões.

A utilização mais comum do biogás é a queima para a geração de eletricidade. Transformado em biometano – o que depende de um processo de purificação –, ele tem um valor potencialmente mais alto, já que se torna um combustível renovável contribui para a descarbonização de várias atividades.

O mercado, segundo Stefanutti, não tem falta de compradores — “o gargalo está na produção”, afirma. A questão é fechar a conta. A GNR Fortaleza conseguiu viabilizar o projeto graças à garantia de compra da Cerbras, uma fábrica de cerâmica local.

Ter um cliente firme durante o período de testes foi essencial para viabilizar o projeto, diz Thiago Levy, diretor comercial da Marquise Ambiental, grupo com faturamento anual de R$ 1,3 bilhão do qual faz parte a GNR.

“A  Cerbras consumiu 100% do biometano produzido até que a ANP aprovasse a injeção do gás verde na rede de distribuição”, afirma o executivo. O governo estadual também ofereceu incentivos tributários.

Existe outro desafio importante na ponta da produção: a qualidade da “matéria-prima” que vai gerar o biogás. A coleta seletiva ainda é deficiente, o que significa que o material orgânico muitas vezes está misturado com latas de cosméticos, embalagens de produtos químicos ou de aerossóis.

A presença de contaminantes exige equipamentos mais sofisticados para purificação e, portanto, aumenta o custo. Avanços na separação de resíduos teria impacto positivo duplo: além de incentivar o reaproveitamento de materiais recicláveis, haveria mais insumos para a geração de combustíveis verdes.

Compensação
O mercado de biometano vai além da venda direta do produto. A GNR pode comercializar certificados ambientais, como o Gas- REC. Trata-se de uma maneira de garantir a substituição de combustíveis fósseis por alternativas renováveis.

O Gas-REC rastreia o biometano de sua geração até o consumo. Mesmo que o comprador não receba o gás de origem renovável – por estar distante da rede de distribuição, por exemplo – ele pode comprar uma certificação que atesta a aquisição do gás verde.

O mecanismo é parecido com o que é utilizado no mercado de energia elétrica: empresas que adquirem energia gerada por fontes limpas, como usinas eólicas, independentemente da origem da eletricidade que elas efetivamente recebem pela rede.

O Gas-Rec é retirado de circulação após seu uso, ou seja, quando o comprador contabilizou o benefício climático de sua aquisição.

Fonte: Reset / Cegás – Foto: Foto: Mariana Rosetti / Cegás