Produzimos mais. Lucros? Menos. A verdade que escondem do agro

Produzimos mais. Lucros? Menos. A verdade que escondem do agro
Publicado em 24/10/2025 às 15:28

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

O Brasil segue quebrando recordes de toneladas, mas não de resultado. A safra 2024/25 de grãos foi estimada em 350,2 milhões t, novo recorde histórico.

Mesmo assim, o valor da produção agrícola caiu 3,9% em 2024 (segundo ano seguido de queda), com os grãos recuando 17,9% em valor. Em paralelo, a área plantada aumentou. Produzimos mais… e recebemos menos.

Enquanto comemoramos volume, o caixa do produtor aperta:
• Margens comprimidas forçam decisões reativas: compras adiadas elevam custo futuro de insumos e adubos — a própria CNA descreve “margens apertadas” na virada 25/26.
• Em 2024, o setor alternou entre trimestres de queda do PIB do agro (1º e 2º trim) e leve recuperação no fim do ano — sinal de volatilidade de renda, não de prosperidade sustentada.
• A pressão financeira explodiu em 2025: pedidos de Recuperação Judicial no agro cresceram 32% no 2º tri; só no 1º tri, 195 pedidos de produtores (PF) foram mapeados pela Serasa. É o retrato da margem que sumiu.

O ponto cego do Brasil
Produtividade agrícola é saca por hectare. Produtividade econômica é quanto sobra no bolso.
Enquanto investimos pesado em tecnologia de produção, outros países avançam em tecnologia de mercado, gestão, logística e biotecnologia aplicada à margem — exatamente onde o lucro nasce.

Diagnóstico (sem eufemismo)
Sem gestão financeira rigorosa, inteligência comercial (hedge, base, termos de troca), logística competitiva e P&D voltado a custo e margem, o agro brasileiro fica forte na lavoura e fraco no caixa. Os números acima deixam claro: volume não paga boleto.
Chamado à virada (o que muda o jogo)

  1. Gestão de risco e de caixa como padrão: travas comerciais, política de estoques, custo por talhão e por ciclo.
  2. Mercado e logística: foco em base de exportação, frete, calendarização de vendas e janelas de preço.
  3. Tecnologia pró-margem: biotecnologia e manejo voltados à redução de custo unitário (não apenas ao aumento de volume).
  4. Governança e dados: indicadores de rentabilidade por hectare, giro de capital e retorno sobre o risco orientando cada decisão.

Resumo
Produzimos mais, mas lucramos menos. Recorde de safra não é recorde de lucro. Em 2024, o valor da produção caiu mesmo com mais área; em 2025, RJs no agro disparam. O problema não é falta de saca — é falta de margem. A virada começa quando o Brasil parar de medir o agro em toneladas e passar a medir em rentabilidade.