A Política de Importações e o Avanço da Inviabilidade Econômica da Produção de Alimentos no Brasil

A Política de Importações e o Avanço da Inviabilidade Econômica da Produção de Alimentos no Brasil
Publicado em 05/06/2026 às 10:24
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

A recente ampliação das importações de alimentos com alíquotas reduzidas ou zeradas tem sido apresentada à sociedade como uma ferramenta eficaz para conter a inflação e garantir o abastecimento interno. Embora essa estratégia possa produzir efeitos imediatos sobre os preços pagos pelos consumidores, ela ignora uma questão estrutural que se torna cada vez mais evidente no meio rural brasileiro: a crescente inviabilidade econômica da produção de alimentos dentro do país. O debate sobre a importação de produtos agropecuários não pode ser limitado à análise dos preços praticados nos supermercados. É necessário compreender os impactos dessa política sobre a capacidade produtiva nacional, sobre a permanência das famílias no campo e sobre a segurança alimentar de longo prazo.
O Brasil possui uma das agriculturas mais eficientes do mundo em termos produtivos. Entretanto, eficiência produtiva não significa necessariamente competitividade econômica. O produtor rural brasileiro opera em um ambiente caracterizado por elevados custos financeiros, infraestrutura deficiente, crescente insegurança jurídica, alta carga tributária indireta e um conjunto de exigências ambientais que, embora importantes para a preservação dos recursos naturais, impõem custos que não são observados em diversos países concorrentes. Quando alimentos produzidos em sistemas econômicos completamente distintos ingressam no mercado brasileiro com tarifas reduzidas ou inexistentes, estabelece-se uma concorrência que não ocorre em condições de igualdade.
Os efeitos dessa realidade já podem ser observados em diversas cadeias produtivas. O setor leiteiro talvez represente o exemplo mais evidente. Nos últimos anos, a entrada de leite em pó proveniente principalmente da Argentina e do Uruguai tem provocado forte pressão sobre os preços pagos aos produtores nacionais. O resultado é uma atividade que enfrenta margens cada vez menores, ao mesmo tempo em que lida com custos crescentes de alimentação animal, energia, mão de obra e financiamento. A consequência prática tem sido o abandono da atividade por milhares de produtores, especialmente aqueles de menor escala, que não possuem capacidade financeira para suportar longos períodos de baixa rentabilidade.
Situação semelhante pode ser observada na rizicultura. O produtor de arroz brasileiro, particularmente no Rio Grande do Sul, já enfrenta desafios relacionados à volatilidade climática, aos elevados custos de produção e ao endividamento acumulado em sucessivas safras. A ampliação das importações em momentos de excesso de oferta ou de recuperação produtiva agrava ainda mais a pressão sobre os preços internos. Embora o consumidor possa perceber benefícios temporários, o produtor passa a enfrentar dificuldades crescentes para recuperar seus investimentos e manter a sustentabilidade econômica da atividade.
No caso do trigo, a dependência histórica das importações tem contribuído para um cenário no qual o produtor nacional encontra dificuldades para expandir sua participação no mercado. O trigo argentino, favorecido pelos mecanismos do Mercosul, exerce influência direta sobre a formação dos preços internos. O resultado é uma cadeia produtiva que frequentemente opera sob margens reduzidas e que encontra obstáculos para ampliar investimentos em tecnologia, produtividade e expansão de área.
O alho talvez represente um dos casos mais emblemáticos da dificuldade enfrentada pelos agricultores brasileiros. A concorrência com produtos importados, especialmente oriundos da China, tem provocado períodos de forte desvalorização do produto nacional. Em diversas ocasiões, produtores brasileiros relataram comercializações abaixo dos custos de produção, comprometendo a viabilidade econômica de uma atividade que demanda elevados investimentos em tecnologia, armazenamento e manejo.
O setor do cacau também merece atenção. Apesar da importância histórica da cultura para determinadas regiões do país, a concorrência com grandes produtores internacionais tem limitado a capacidade de recuperação econômica da cadeia produtiva brasileira. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à piscicultura, especialmente diante do avanço das importações de pescado oriundo de países com custos de produção significativamente inferiores aos observados no Brasil.
O aspecto mais preocupante dessa realidade não está apenas na redução temporária da renda dos produtores. O verdadeiro risco encontra-se na destruição gradual da capacidade produtiva nacional. Diferentemente do que ocorre em setores industriais, a produção agropecuária depende de conhecimento acumulado, sucessão familiar, infraestrutura específica e investimentos de longo prazo. Quando uma atividade deixa de ser economicamente viável, a recuperação não ocorre de forma imediata. Muitas vezes, produtores que abandonam determinada cadeia produtiva não retornam à atividade, resultando em perdas permanentes para a economia regional e para a oferta futura de alimentos.
A experiência internacional demonstra que as principais potências agrícolas do mundo compreendem a produção de alimentos como uma atividade estratégica. Estados Unidos, União Europeia e China utilizam diferentes instrumentos de apoio aos seus produtores, reconhecendo que a segurança alimentar constitui um componente fundamental da soberania nacional. Nenhum desses países baseia sua política agrícola exclusivamente na busca por alimentos mais baratos no mercado internacional. Ao contrário, todos procuram equilibrar o interesse do consumidor com a necessidade de preservar a capacidade produtiva doméstica.
O debate brasileiro, entretanto, frequentemente ignora essa dimensão estratégica. A redução de tarifas de importação é apresentada como uma solução imediata para problemas conjunturais, sem que sejam discutidos os impactos sobre a renda rural, sobre o emprego no interior e sobre a capacidade de produção futura. Essa abordagem desconsidera que o fechamento de propriedades rurais, a redução de investimentos e o abandono de atividades produtivas geram consequências econômicas e sociais que ultrapassam os limites das fazendas e afetam diretamente municípios inteiros dependentes da agropecuária.
O grande desafio do Brasil não consiste em impedir importações ou isolar-se do comércio internacional. O verdadeiro desafio é criar condições para que o produtor brasileiro possa competir em igualdade de condições. Isso exige políticas voltadas para a redução do custo do crédito, ampliação do seguro rural, melhoria da infraestrutura logística, fortalecimento da defesa sanitária, simplificação regulatória e construção de mecanismos que permitam maior estabilidade de renda ao produtor. Sem enfrentar esses problemas estruturais, a abertura crescente para produtos importados tende a ampliar um processo já perceptível em diversas regiões do país: a substituição gradual da produção nacional por alimentos produzidos no exterior.
Ao optar por soluções de curto prazo para conter preços ao consumidor, o Brasil corre o risco de comprometer a sustentabilidade de longo prazo de sua própria produção agropecuária. A questão central, portanto, não é simplesmente avaliar quanto custa importar alimentos hoje, mas compreender quanto custará ao país perder sua capacidade de produzi-los amanhã. A resposta para essa pergunta pode definir não apenas o futuro do produtor rural brasileiro, mas também a segurança alimentar das próximas gerações.