Por Que o Brasil Teme Tratar o Agronegócio com a Seriedade que Ele Merece?


“O Agro Brasileiro Precisa de Verdade, Não de Discurso”.
Nos últimos dias, vimos o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmar a nível nacional que o Brasil está prestes a alcançar a maior produção agropecuária da sua história. A declaração, transmitida com entusiasmo, soa como uma boa notícia — e, de fato, poderia ser. Mas quem vive o campo, quem trabalha com os números reais da produção e acompanha o dia a dia das cadeias produtivas, sabe que a realidade vai muito além dos recordes de safra que o governo insiste em celebrar.

O problema é que estamos diante de um discurso político que tenta esconder, com dados de produção, um cenário estruturalmente grave. O país até produz muito, mas produz sem viabilidade. Produz com produtores endividados, com cadeias logísticas travadas, com ausência de apoio técnico, falhas no crédito, instabilidade climática, insegurança jurídica e uma total falta de articulação entre governo e setor produtivo.

A crise está no campo – e não é de hoje
A imagem de um Brasil agrícola vitorioso está sendo usada como cortina de fumaça para não encarar os reais problemas do setor. Basta observar:
• O número crescente de produtores entrando em recuperação judicial;
• A insegurança de pequenos e médios pecuaristas e agricultores que produzem sem qualquer garantia de rentabilidade;
• A ausência de políticas públicas estruturantes, capazes de garantir previsibilidade e sustentabilidade ao setor;
• A logística ineficiente, que continua encarecendo os custos e comprometendo a competitividade.
Não é falta de potencial. É falta de gestão, de visão estratégica e de coragem política para fazer o que precisa ser feito.
Quantos números bonitos encobrem produtores quebrados?

A comunicação oficial tenta nos convencer de que o agro brasileiro vive um momento histórico. Mas um setor verdadeiramente forte não se mede apenas por toneladas colhidas ou por saldo na balança comercial. Medimos um agro forte quando o produtor consegue pagar suas contas, reinvestir na propriedade, inovar com segurança, acessar crédito de qualidade, comercializar com margem justa e participar ativamente das decisões que definem seu futuro.

Hoje, não temos nada disso. E mais: quem deveria representar o produtor rural — tanto no Congresso quanto nos gabinetes de Brasília — muitas vezes está mais preocupado em sustentar a narrativa política do que em enfrentar os gargalos que impedem a verdadeira evolução do agronegócio brasileiro.

Hora de mudar o tom e encarar a realidade. É preciso romper com o modelo atual de gestão pública do agro. Precisamos parar de aceitar como “normal” um setor que só cresce no papel, enquanto os produtores desaparecem na prática.

A viabilidade das cadeias produtivas deve ser a prioridade número um. E isso não se resolve com pronunciamentos em programas de TV, mas com planejamento de longo prazo, escuta ativa da base produtiva, eficiência na liberação de crédito, políticas de mitigação de riscos climáticos, investimentos em infraestrutura e um novo pacto de gestão entre governo, setor privado e instituições.

O Brasil tem o que é necessário para ser a maior potência agroalimentar do planeta. Mas, para isso, precisa tratar o agro com a seriedade que ele merece — e não com discursos ensaiados. Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor de Agronegócio




