PECUÁRIA DE LEITE NO BRASIL: UMA CRISE ANUNCIADA E IGNORADA

PECUÁRIA DE LEITE NO BRASIL: UMA CRISE ANUNCIADA E IGNORADA
Publicado em 06/05/2025 às 9:08
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão do Agronegócio, Escritor e Palestrante

A pecuária de leite no Brasil tem sido sistematicamente sufocada nas últimas décadas. O custo de produção segue elevado, impulsionado por insumos caros, infraestrutura precária e crédito inacessível. Enquanto isso, o preço pago ao produtor pelo litro do leite permanece baixo, descolado da realidade de quem trabalha de sol a sol para manter sua atividade viva.

Laticínios, por sua vez, continuam apresentando margens de lucro robustas. A fórmula usada para definir o valor do leite pago ao produtor — baseada quase exclusivamente no preço da muçarela e do leite UHT — é completamente absurda. Desconsidera que os laticínios processam o leite em mais de 80 produtos diferentes, como creme de leite, iogurtes, bebidas lácteas, leite condensado, queijos finos e outros derivados com margens expressivas. Enquanto o produtor recebe centavos, as indústrias lucram com a diversificação e agregação de valor.

As Conseleite, que deveriam proteger o produtor, seguem omissos, atuando muitas vezes como instrumento para manter os preços baixos sob o pretexto de mercado. Isso tem resultado em prejuízos consecutivos, fechamento de propriedades e aumento drástico do endividamento dos pequenos e médios produtores de leite em todo o país.

E como se não bastasse, o Brasil ainda sofre com importações massivas de leite e derivados. Somente em 2023, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o país importou:
• Mais de 180 mil toneladas de leite em pó, especialmente da Argentina e Uruguai;
• Mais de 40 mil toneladas de queijos com preços altamente competitivos;
• Grandes volumes de leite condensado, creme de leite e outros produtos lácteos industrializados.

Essas importações ocorrem em condições desiguais, favorecidas por acordos do Mercosul que isentam tarifas e por políticas fiscais e cambiais dos países vizinhos que tornam seus produtos mais baratos que os nacionais. Resultado: o produtor brasileiro, sem proteção nem incentivo, é forçado a competir com um mercado externo subsidiado e com indústria nacional que não repassa os ganhos.

Essa é a realidade dura de milhares de famílias que vivem da produção de leite. O Brasil precisa urgentemente de uma nova política para o setor leiteiro, que enfrente os problemas estruturais, proteja o produtor e reequilibre essa cadeia produtiva essencial para a segurança alimentar do país.