Mercados Abertos Para Quem? A Diplomacia Brilha, o Produtor Continua do Lado de Fora
O governo anuncia com entusiasmo a abertura de novos mercados internacionais. São centenas de protocolos assinados, números comemorados em coletivas e manchetes que reforçam a narrativa de um agro cada vez mais globalizado. Mas, quando tiramos o verniz diplomático, surge a pergunta essencial: quem, de fato, se beneficia dessa abertura?


O governo anuncia com entusiasmo a abertura de novos mercados internacionais. São centenas de protocolos assinados, números comemorados em coletivas e manchetes que reforçam a narrativa de um agro cada vez mais globalizado. Mas, quando tiramos o verniz diplomático, surge a pergunta essencial: quem, de fato, se beneficia dessa abertura?
Porque no campo, a realidade é outra.
A expansão dos acordos internacionais não tem sido acompanhada pela inclusão efetiva do produtor rural brasileiro. Abrir mercado não significa garantir acesso a ele.

No Brasil, “mercado aberto” é, na maioria das vezes, apenas uma habilitação técnica ou sanitária. Não representa exportação, não significa que o produtor terá uma rota logística, uma certificação adequada ou até mesmo informação sobre como participar desse mercado.
O resultado é um abismo entre o discurso e a prática:
• Menos de 1% das propriedades rurais participa diretamente das exportações.
• Mais de 5 milhões de produtores continuam presos ao mercado interno, onde os custos sobem, as margens se comprimem e o crédito encarece.

Não é falta de competência produtiva.
Não é dificuldade técnica.
É concentração de acesso e informação.
Traders, grandes cooperativas e gigantes industriais controlam a logística, as certificações e os canais internacionais. Têm prioridade, estrutura e influência. Enquanto isso, a maioria dos produtores enfrenta um labirinto burocrático, falta de transparência, ausência de estrutura regional e nenhum apoio especializado para acessar o mercado global.
Criamos duas velocidades no agro brasileiro:

O agro diplomático
Moderno, global, eficiente, celebrado em palanques e relatórios oficiais.
O agro real
O produtor sufocado por juros altos, custos operacionais crescentes, infraestrutura precária e zero acesso direto ao comércio exterior.
A diplomacia avança — mas a renda do produtor não.
O Brasil abre mercado — mas não democratiza o acesso.
E, assim, o sucesso fica restrito ao topo da cadeia, ampliando desigualdades e fragilizando a base produtiva.

A verdadeira pergunta não é quantos mercados o Brasil abriu, mas quantos produtores conseguem exportar.
Por isso, a solução não está apenas na diplomacia.
Está em criar instrumentos que integrem o produtor ao mercado internacional.
Uma proposta prática e executável: Centros Regionais de Acesso ao Mercado Internacional, conectando:
• certificação sanitária e documental;
• inteligência de mercado;
• logística compartilhada;
• capacitação técnica;
• apoio comercial e jurídico para exportação.
Essa é uma linha estratégica do Dossiê Unificado do Agro, no eixo “Campo à Mesa”: não basta produzir — é preciso acessar, vender e capturar valor.
Conclusão
O Brasil não pode continuar celebrando números que não chegam ao campo.
A abertura de mercado só terá sentido quando o produtor rural exportar com autonomia, competitividade e rentabilidade.
Diplomacia sem acesso é estatística.
Acesso com resultado é desenvolvimento.





