Seguro Rural Não Sustenta um Agro Sem Viabilidade


Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
O artigo de Pedro Loyola, publicado no Canal Rural sob o título “Inadimplência no agro e a fragilidade orçamentária do seguro rural”, apresenta dados consistentes e coloca luz sobre a inadimplência crescente e a baixa cobertura do seguro rural no Brasil.

Os números são reais, comprovados por relatórios oficiais, e a comparação com Espanha e Estados Unidos mostra como o Brasil está atrasado na construção de políticas de mitigação de risco. No entanto, é justamente no ponto central que o texto falha: ao restringir a análise da crise atual à falta de orçamento para o seguro rural.

Onde o artigo falha
A inadimplência não decorre apenas de eventos climáticos. O produtor rural brasileiro está sendo esmagado pelo Custo Operacional Total (COT): boi magro caro, insumos, ração, juros elevados, impostos e logística que consome margens. A conta não fecha. O problema de fato é que o produtor planta, colhe e comercializa abaixo do custo de produção.

O seguro rural, por mais importante que seja, não tem a função de corrigir essa distorção estrutural. Ele cobre perdas por eventos climáticos, mas não resolve o desequilíbrio crônico entre custo e preço. Reduzir o debate a mais orçamento para o PSR é ignorar que a raiz da inadimplência é a falta de viabilidade econômica do agro.

O caminho prático
O que falta ao setor é uma visão mais ampla e integrada, que contemple: 1. Viabilidade como prioridade – o seguro deve ser um complemento. Antes, é preciso atacar os custos totais de produção e garantir margens mínimas para que o produtor consiga se manter no campo. 2. Gestão de risco integrada – o seguro rural precisa caminhar ao lado de instrumentos de hedge, proteção de preços, gestão financeira e eficiência produtiva. Seguro sem gestão é apenas paliativo. 3. Modelo híbrido de financiamento – a expansão do seguro rural não pode depender apenas de orçamento público. É preciso atrair capital privado, via FIAGRO, resseguradoras e fundos de investimento, com regras claras e segurança jurídica. 4. Critérios objetivos – não se pode tratar da mesma forma o produtor que perdeu por evento climático e o que quebrou por má gestão. O seguro deve premiar eficiência, e não alimentar dependência.

Conclusão
Pedro Loyola acerta ao mostrar a fragilidade orçamentária do seguro rural e ao evidenciar o risco crescente da inadimplência. Mas erra ao dar ao seguro o peso de solução central para o problema do agro brasileiro. Seguro rural não sustenta um setor sem viabilidade.
Enquanto o custo de produção continuar maior que o preço de venda, o seguro será apenas um curativo em um paciente que segue doente. O verdadeiro debate precisa enfrentar o essencial: sem viabilidade econômica, financeira e comercial, não há seguro que segure o agronegócio brasileiro.




