Recuperações Judiciais no Agro sob o Governo Atual (2023–2025): O Que os Grandes Casos Revelam

Entre 2023 e 2025, o agronegócio brasileiro passou por uma escalada crítica de recuperações judiciais (RJs), atingindo não apenas pequenos e médios produtores, mas também grandes grupos estratégicos das cadeias de insumos, originação e agroindústria. O 1º trimestre de 2025 registrou 389 pedidos de RJ, alta de 21,5% frente ao período anterior. O dado mais grave: a liderança dos pedidos está com pessoas físicas (produtores rurais), o que demonstra colapso financeiro na base e contaminação em cascata sobre distribuidores, processadores e indústrias.

Recuperações Judiciais no Agro sob o Governo Atual (2023–2025): O Que os Grandes Casos Revelam
Publicado em 20/08/2025 às 8:51
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

Entre 2023 e 2025, o agronegócio brasileiro passou por uma escalada crítica de recuperações judiciais (RJs), atingindo não apenas pequenos e médios produtores, mas também grandes grupos estratégicos das cadeias de insumos, originação e agroindústria.

O 1º trimestre de 2025 registrou 389 pedidos de RJ, alta de 21,5% frente ao período anterior. O dado mais grave: a liderança dos pedidos está com pessoas físicas (produtores rurais), o que demonstra colapso financeiro na base e contaminação em cascata sobre distribuidores, processadores e indústrias.

O setor sucroenergético é um retrato emblemático dessa crise estrutural: em 2024, 24% das usinas brasileiras estavam em RJ ou falência — 79 em recuperação (32 paradas) e 28 falidas (25 já sem operação). A combinação de endividamento histórico, juros elevados, volatilidade de preços e choques climáticos reforça o risco sistêmico para crédito, empregos e fornecimento de biomassa/etanol.

Casos que simbolizam o período
• AgroGalaxy (insumos e distribuição): entrou em RJ em 2024 com passivo de R$ 4,1–4,7 bi, homologando plano em 2025 após medidas emergenciais de liquidez. É a prova de que quando o produtor trava, o distribuidor quebra junto.
• Grupo Peres (café, grãos e pecuária): pediu RJ em agosto de 2025 com dívida de R$ 118,6 mi. Diversificação não blindou o grupo contra a tríade letal: custo, crédito e clima.
• Atvos (ex-Odebrecht Agro): saiu de RJ em 2023 após quatro anos de processo, mostrando que até no sucroenergético é possível reestruturar — mas os números setoriais revelam que ainda há muitas usinas vulneráveis.

Fatores que explicam o aperto nos grandes 1. Margens comprimidas na base: produtor endividado reduz giro dos distribuidores e indústrias. 2. Crédito caro e restrito: juros reais elevados e maior seletividade dos bancos. 3. Clima e logística: extremos climáticos e frete caro desorganizam safra, caixa e prazos. 4. Concentração de mercado: poucos compradores pressionam preços e descapitalizam fornecedores. 5. Histórico sucroenergético: ciclo de RJs e falências que persiste há mais de uma década.

Consequências nacionais
• Emprego: cinturões inteiros de serviços, transporte e comércio regional sofrem.
• Crédito: bancos encurtam prazos, aumentam garantias e elevam custo do financiamento.
• Consolidação: ativos de grupos em RJ acabam vendidos para concorrentes mais capitalizados, aumentando concentração no setor.

Caminho de saída
• Para empresas: caixa diário sob controle, estoques enxutos, políticas rígidas de crédito, hedge disciplinado e uso estratégico da RJ (consolidação, venda de UPIs, DIP finance).
• Para políticas públicas: crédito anticíclico, garantias parciais para empresas-chave, seguro de receita indexado ao clima e mecanismos de mediação pré-RJ para preservar valor.

Conclusão: No agro de 2023–2025, a recuperação judicial deixou de ser uma exceção para grandes players e virou um reflexo brutal da falta de viabilidade econômica, financeira e estrutural do setor. O que antes era visto como problema do pequeno produtor hoje alcança gigantes, deixando claro que o ciclo ruim, o crédito caro e os extremos climáticos não poupam ninguém.