A Contradição do Discurso: Brasil “Combate a Fome Mundial”, Mas Não Resolve a Fome Interna
O governo brasileiro tem reforçado um discurso de que o país é capaz de alimentar mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo e que está na linha de frente no combate à fome global. Ao mesmo tempo, anuncia que o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, sugerindo que a fome não é mais um problema interno. Essa narrativa, no entanto, não fecha com a realidade vivida dentro das fronteiras nacionais.


O governo brasileiro tem reforçado um discurso de que o país é capaz de alimentar mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo e que está na linha de frente no combate à fome global. Ao mesmo tempo, anuncia que o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, sugerindo que a fome não é mais um problema interno. Essa narrativa, no entanto, não fecha com a realidade vivida dentro das fronteiras nacionais.

A realidade da fome e insegurança alimentar no Brasil
Apesar do anúncio, dados da FAO, IBGE e Rede Penssan mostram que milhões de brasileiros ainda convivem com fome ou insegurança alimentar severa.
Em 2023, cerca de 7 milhões de pessoas estavam em insegurança alimentar grave, ou seja, passando fome de forma recorrente. Já em 2024, esse número subiu para aproximadamente 7,8 milhões, segundo dados consolidados pela Rede Penssan.
Quando somamos insegurança alimentar moderada e grave, chegamos a quase 10% dos lares brasileiros, com dificuldade para manter três refeições por dia. Em números absolutos, isso representa cerca de 21 milhões de pessoas sem acesso regular a alimentação adequada.

A falsa vitória sobre a fome extrema
O critério usado pela ONU para retirar o país do Mapa da Fome considera apenas que menos de 2,5% da população está em subnutrição severa. Isso não significa que a fome foi erradicada ou que a população tem acesso pleno a alimentos adequados.
Programas sociais ajudam a reduzir índices, mas não resolvem a desigualdade estrutural, a pobreza e a falta de renda estável. O aumento de 15% no preço médio dos alimentos básicos em 2024, conforme o IPCA, agravou ainda mais a situação das famílias de baixa renda.

O paradoxo do “celeiro do mundo”
O Brasil é, de fato, um gigante na produção de alimentos, abastecendo o mercado global e exportando para atender bilhões de pessoas. Em 2024, as exportações do agronegócio superaram US$ 165 bilhões. Porém, essa condição não se traduz em segurança alimentar para a própria população.
A inflação dos alimentos, o baixo poder aquisitivo e a má distribuição de renda fazem com que milhares de famílias brasileiras vivam em condições precárias de alimentação, mesmo em um país que bate recordes de exportação.

Narrativa política versus realidade
Ao anunciar que “o Brasil saiu do Mapa da Fome”, o governo cria uma narrativa de prosperidade e sucesso social, que não condiz com a realidade. Essa comunicação política mascara os desafios reais e impede o desenvolvimento de políticas públicas sólidas para erradicar de fato a fome.
Enquanto isso, a desigualdade cresce e a população mais vulnerável segue sem acesso pleno a alimentos de qualidade. Em 2024, o índice de insegurança alimentar grave voltou a níveis semelhantes aos de 2014, evidenciando que não houve avanço real.

Conclusão
O Brasil pode até ser “o celeiro do mundo”, mas não alimenta adequadamente o próprio povo. Sair do Mapa da Fome da ONU é apenas um dado técnico, não uma vitória social definitiva. Enquanto milhões de brasileiros ainda convivem com fome, insegurança alimentar e subnutrição, não há motivo para comemoração, apenas para reflexão e cobrança de soluções reais.




