Brasil: Onde a Política Agrícola Protege o Banco e Sacrifica o Produtor

Nos discursos oficiais, o crédito rural é apresentado como política de fomento à produção, mas na prática, ele tem servido cada vez mais como um instrumento de concentração financeira e submissão do produtor aos interesses bancários. A verdade é clara: no Brasil, a política agrícola não foi feita para proteger quem produz, mas sim para blindar quem empresta.

Brasil: Onde a Política Agrícola Protege o Banco e Sacrifica o Produtor
Publicado em 19/07/2025 às 9:40
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica do Agronegócio

Nos discursos oficiais, o crédito rural é apresentado como política de fomento à produção, mas na prática, ele tem servido cada vez mais como um instrumento de concentração financeira e submissão do produtor aos interesses bancários.
A verdade é clara: no Brasil, a política agrícola não foi feita para proteger quem produz, mas sim para blindar quem empresta.
Exemplo recente: Banco do Brasil e o crédito de R$ 9 milhões

Durante uma live com acionistas, um analista do Banco do Brasil relatou o caso de um produtor rural que buscou R$ 9 milhões em financiamento.

O banco exigiu:
• Como garantia: uma propriedade rural avaliada em R$ 90 milhões (dez vezes o valor do crédito);
• Mais: um seguro rural obrigatório no valor de R$ 180 mil.
Isso não é política de crédito.
Isso é operação de baixo risco para o banco e alto custo para quem produz.

Por que os bancos dominam a política rural?

  1. Crédito rural controlado pelos bancos privados e estatais:
    o Mais de 70% dos recursos do Plano Safra 25/26 estão sob gestão de instituições financeiras, que cobram taxas entre 18% e 24% ao ano;
    o O governo apenas equaliza parte dos juros — mas não regula as garantias abusivas.
  2. Excesso de garantias exigidas:
    o Terras, maquinários, colheitas futuras e seguros obrigatórios são exigidos, mesmo em operações com recursos públicos;
    o Isso viola o princípio básico do fomento, que deveria ser viabilidade e não excesso de blindagem bancária.
  3. Seguro rural obrigatório com custo alto:
    o Mesmo sem cobertura eficaz em eventos climáticos, o seguro virou pré-requisito para liberação de crédito;
    o É uma política que transfere o risco do banco para o produtor, sem garantia de retorno para quem contrata.
  4. Ausência de políticas estruturantes:
    o Nenhuma ação concreta do governo para:
     Reduzir a dependência do crédito bancário;
     Fortalecer fundos garantidores setoriais;
     Estimular cooperativas de crédito e securitização com gestão técnica e viável; o Resultado: a porteira está hipotecada à burocracia bancária.

O sistema hoje funciona assim:
Quem financia? Quem lucra? Quem arrisca?
O produtor O banco O produtor

A matemática é simples:
• O banco sempre recebe.
• O produtor sempre depende.
• E o governo sempre omite.

Conclusão: o crédito rural no Brasil virou ferramenta de concentração financeira.
Enquanto o produtor rural está no limite da viabilidade, os bancos continuam registrando lucros bilionários — mesmo em anos de safra ruim.

Isso só é possível porque as regras são feitas para proteger o capital e sufocar a produção.
Se o Brasil quiser garantir segurança alimentar, geração de renda no campo e competitividade internacional, precisa urgentemente rever seu modelo de crédito rural.

O crédito precisa ser aliado da produção — e não instrumento de expropriação patrimonial travestido de apoio ao agro.