A Falta de Comprometimento das Universidades na Formação de Gestores para o Agronegócio Brasileiro
O agronegócio é, indiscutivelmente, um dos pilares da economia nacional, representando aproximadamente 24,8% do PIB brasileiro em 2024, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP). Além disso, é responsável por mais de 40% das exportações brasileiras, movimentando cerca de US$ 165 bilhões em receitas externas no último ano.


O agronegócio é, indiscutivelmente, um dos pilares da economia nacional, representando aproximadamente 24,8% do PIB brasileiro em 2024, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP). Além disso, é responsável por mais de 40% das exportações brasileiras, movimentando cerca de US$ 165 bilhões em receitas externas no último ano.

Apesar dessa importância econômica gigantesca, é lamentável perceber que as universidades brasileiras, em sua maioria, não têm contribuído de maneira efetiva para formar profissionais capacitados a atuar estrategicamente nesse setor.
As instituições de ensino superior ainda insistem em modelos acadêmicos distantes da realidade do campo, focando excessivamente em aspectos teóricos e científicos importantes, mas insuficientes diante das reais demandas do agronegócio. O setor precisa urgentemente de GESTORES — profissionais preparados para tomar decisões estratégicas, analisar riscos, otimizar processos e gerar resultados concretos.

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), 82% dos produtores rurais brasileiros não possuem formação superior e, entre os que possuem, a grande maioria não teve acesso a disciplinas relacionadas à gestão, finanças, planejamento estratégico ou marketing aplicado ao agronegócio. Esse vácuo formativo cria uma enorme lacuna que compromete a eficiência e a competitividade do setor.

Outro aspecto que causa profunda tristeza e frustração é a forma como as universidades organizam eventos e debates relacionados ao agro. Em vez de criar espaços para discussão franca sobre os desafios estruturais que o setor enfrenta — como a alta carga tributária, que pode representar até 35% do preço final das commodities; a falta de políticas públicas efetivas; a baixa competitividade frente a outros mercados; e a necessidade de inovação na gestão —, as universidades acabam promovendo eventos que servem apenas para massagear o ego de alguns “figurões” do agro.

São sempre os mesmos nomes, os mesmos discursos, reforçando uma narrativa baseada exclusivamente em números grandiosos: a representatividade do agro no PIB, a supersafra e o superávit comercial. Por exemplo, em 2024, o Brasil colheu uma supersafra de 318 milhões de toneladas de grãos, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mas esse número esconde o fato de que, nesse mesmo ano, o endividamento rural alcançou R$ 1,2 trilhão, conforme estudo do Observatório das Finanças Rurais.
Esses dados mostram que, embora a produção seja recorde, a rentabilidade está cada vez mais comprimida. Muitos produtores enfrentam margens de lucro inferiores a 5%, tornando suas operações vulneráveis e, em muitos casos, inviáveis.

As universidades deveriam assumir um papel mais corajoso e protagonista, aproximando-se do produtor rural, da indústria, das cooperativas e dos demais elos da cadeia produtiva, para compreender e ajudar a resolver os desafios reais do setor. Precisamos de eventos que promovam a verdade, que mostrem o lado oculto do agronegócio e que impulsionem mudanças estruturais na formação profissional.

Enquanto essa desconexão persistir, o Brasil continuará sendo um gigante na produção, mas vulnerável na gestão. O futuro do agronegócio depende, mais do que nunca, da formação de gestores preparados para garantir a viabilidade econômica, social e ambiental do setor.




