Diversificar por Diversificar Não Resolve: A Verdade Sobre a Produção de Alimentos no Brasil


Recentemente, o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, fez uma declaração defendendo a diversificação da produção de alimentos no Brasil como forma de evitar riscos em caso de problemas climáticos ou logísticos.
À primeira vista, o princípio parece correto. Mas, como toda proposta dita da cúpula sem conhecimento do chão, esbarra em uma realidade que não pode ser ignorada: o Brasil já é um dos países mais diversos em produção agrícola no mundo. O problema não é a falta de diversidade. É a falta de estrutura.
O Brasil é diverso. Mas a produção de alimentos não se move por decreto
O ministro ignora que a diversificação de culturas não depende apenas de boa vontade ou de orientação política. Ela depende de:
• Condições climáticas
• Qualidade de solo
• Aptidão agrícola regional
• Logística e escoamento
• Infraestrutura de armazenamento
• Apoio técnico e pesquisa
• Mercado consumidor e integração comercial
Diversificar onde não há condições é tão ineficiente quanto monoculturar onde há vocação diversa.
Não se planta maçã na Caatinga. Nem soja em encosta alagada. Nem arroz irrigado onde não há água.
A estrutura atual está sufocada — e precisa ser fortalecida antes de qualquer “nova missão”
A verdade é que, hoje, boa parte dos produtores brasileiros mal conseguem manter a viabilidade daquilo que já produzem.
• Falta energia elétrica estável em polos produtivos.
• Falta armazenamento para a produção colhida.
• Falta assistência técnica pública.
• Falta crédito real, com juros decentes.
• Falta segurança jurídica e logística para manter a produção girando.
E o governo quer diversificar?
Antes de pensar em plantar diferente, é preciso garantir que o produtor consiga continuar plantando o que já sabe fazer bem.
Diversificar sem base é criar mais risco, não menos
A diversificação sem estudo técnico pode comprometer ainda mais o sistema, ao empurrar produtores para culturas que:
• Demandam tecnologias que não estão disponíveis regionalmente
• Enfrentam baixa demanda de mercado
• Possuem ciclos mais longos ou maior risco climático
• São mais frágeis economicamente
Sem uma política pública integrada, com mapeamento territorial, apoio técnico e infraestrutura direcionada, a diversificação vira improvisação. E o campo não sobrevive de improviso.
A saída é outra: fortalecer a base, viabilizar o que já é feito, e construir alternativas com planejamento
O que o Brasil precisa hoje não é de mais discursos sobre diversificação.
O que o Brasil precisa é de:
• Investimento pesado em estrutura logística e de produção
• Expansão da pesquisa agropecuária adaptada ao bioma local
• Apoio técnico regional para novos cultivos onde houver vocação
• E principalmente, viabilização econômica da produção atual, que já alimenta o país e o mundo
Conclusão
A diversificação da produção de alimentos no Brasil é um objetivo nobre — mas perigoso quando proposto por quem não entende a complexidade do campo.
Não se planta estratégia em solo raso.
Não se colhe segurança alimentar sem estrutura.
E não se diversifica produção com discurso de gabinete.
O produtor rural brasileiro precisa de apoio para produzir com lucro — não de orientações generalistas que ignoram a geografia, a técnica e a realidade de cada estado. Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor de Agronegócio




