O Cacau Brasileiro e a injustiça invisível: Quando quem produz é o último a ser lembrado


Poucos produtos representam tanto valor agregado no mercado global quanto o cacau. Transformado em chocolate, ele movimenta bilhões em todo o mundo. Mas há algo profundamente errado na forma como essa cadeia se organiza no Brasil: o produtor de cacau, aquele que planta, colhe, fermenta e seca o fruto, recebe menos de 3% do valor final de venda.

Em outras palavras: para cada barra de chocolate vendida a R$ 16 no varejo, o produtor rural recebe algo próximo de R$ 0,50.
Esse número, por si só, já revela a distorção. Mas a situação se agrava quando olhamos para o que acontece em torno desse produtor:
Uma Cadeia Lucrativa para Poucos
A maior parte do valor do chocolate está concentrada em etapas como:
• Indústria de transformação (20%)
• Publicidade e marketing (10%)
• E principalmente no varejo, que fica com até 43% do valor final
A indústria lucra em cima do valor agregado. O marketing lucra em cima da imagem emocional do produto. E o varejo lucra em cima da embalagem.

Mas o produtor? Fica com o mínimo, quando não fica com o prejuízo.
Importação Injusta: O Preço que Vem da África
Como se não bastasse o esmagamento da margem do produtor brasileiro, o mercado interno ainda é pressionado por importações massivas de cacau africano, especialmente da Costa do Marfim e Gana.
Esses países exportam com:
• Custo de produção subsidiado
• Mão de obra com baixa regulamentação (inclusive casos de trabalho infantil)
• Incentivos governamentais à exportação
O resultado? Um cacau mais barato, que serve de referência para a indústria pressionar o preço pago ao produtor brasileiro.

Essa política de importação, sem qualquer controle técnico ou critério de sustentabilidade, representa uma agressão direta à cacauicultura nacional e destrói qualquer possibilidade de crescimento econômico sustentável no campo.
O Produtor Brasileiro Está Sem Proteção
Hoje, o produtor de cacau do Brasil enfrenta:
• Alto custo de produção (insumos, mão de obra, logística)
• Baixo preço pago pela saca
• Falta de políticas públicas específicas
• Pressão de importação externa
• E um mercado interno dominado por indústrias que falam em ESG, mas agem com oportunismo.
Não há proteção comercial. Não há política de preço mínimo. Não há plano de fomento estruturado.
Há, sim, silêncio institucional e indiferença de mercado.

O Brasil Precisa Fazer Escolhas. Se quisermos uma cadeia do cacau forte, sustentável, justa e competitiva, precisamos urgentemente:
• Rever a política de importação do cacau africano
• Criar um programa nacional de valorização do cacau de qualidade
• Promover o cacau fino e o modelo “tree to bar” com apoio fiscal e técnico
• Estabelecer um preço mínimo realista para o produtor brasileiro
• E criar mecanismos para que quem planta seja valorizado — e não explorado
Sem produtor rural não existe chocolate.
E enquanto o agro do cacau continuar sendo tratado como periférico, estaremos abrindo mão de riqueza, dignidade e soberania alimentar.
O Brasil precisa deixar de ser o país onde o lucro é concentrado e o campo é esquecido.
Está na hora de devolver ao cacauicultor o que é dele por direito: respeito, renda e protagonismo.
Celso Ricardo Cougo Ferreira
Consultor em Gestão Estratégica do Agronegócio Brasileiro
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