O Silêncio que Custa Caro: A Ausência do Brasil nas Negociações Internacionais do Agro

O Silêncio que Custa Caro: A Ausência do Brasil nas Negociações Internacionais do Agro
Publicado em 11/04/2025 às 16:58

O Brasil é, sem dúvida, uma potência agropecuária global. Exportamos alimentos para mais de 180 países, somos líderes em diversos produtos e sustentamos parte expressiva da segurança alimentar mundial. No entanto, mesmo com toda essa força produtiva, o país tem se mantido silencioso e submisso nas mesas de negociação internacional, especialmente no que diz respeito ao agronegócio.
O Ministério da Agricultura, que deveria ocupar um espaço estratégico nas discussões comerciais globais, tem deixado escapar oportunidades valiosas. Em um cenário onde acordos multilaterais e bilaterais determinam o futuro do comércio agrícola, o Brasil segue ausente ou mal posicionado, enquanto outras nações defendem com firmeza seus interesses.
A pergunta que fica é: como um país que alimenta mais de um bilhão de pessoas não consegue ser protagonista nas decisões que moldam o futuro da produção e comercialização de alimentos no mundo?
Infelizmente, a resposta está na fragilidade da nossa política externa agropecuária. Ao contrário de outros ministérios que ocupam espaços relevantes em fóruns internacionais, o Ministério da Agricultura se contenta com um papel secundário, muitas vezes protocolar e meramente decorativo.
Essa postura tem consequências sérias:
• Barreiras sanitárias e tarifárias continuam sendo impostas contra o Brasil sem uma reação técnica ou diplomática à altura.
• Acordos comerciais são negociados sem participação estratégica do setor agrícola, ou com presença apenas simbólica.
• O protagonismo geopolítico do agro brasileiro desaparece nas rodadas da OMC, nas discussões do Mercosul, nos BRICS, na FAO ou em qualquer outro ambiente internacional.
Enquanto isso, países concorrentes, como Estados Unidos, União Europeia e até mesmo China, investem pesado em diplomacia agrícola, estabelecem zonas de influência comercial, impõem padrões e defendem com unhas e dentes seus produtores. O Brasil, mesmo com toda sua relevância, segue aceitando regras sem reagir, vendendo sua produção em condições desfavoráveis e acumulando perdas silenciosas.
Mais preocupante ainda é ver que outros ministérios ocupam o espaço que deveria ser liderado pelo Ministério da Agricultura. A ministra do Meio Ambiente, por exemplo, tem tido mais destaque nas COPs do que o representante da Agricultura nas discussões sobre sustentabilidade e mercado de carbono agrícola — temas diretamente ligados ao campo.
É urgente que o Brasil retome sua posição de voz ativa no cenário global. Não basta ser grande na produção se somos pequenos na mesa de negociação. O produtor brasileiro faz sua parte com eficiência e resiliência. Mas quem o representa politicamente e institucionalmente precisa estar à altura desse protagonismo.
O Ministério da Agricultura precisa entender que o silêncio estratégico tem custo — e é um custo alto, que está sendo pago por quem planta, colhe, investe e arrisca diariamente no campo.
É hora de sair da zona de conforto diplomático. É hora de colocar o agro brasileiro como prioridade nas relações internacionais. Ou o Brasil assume seu papel no mundo com coragem e estratégia, ou continuará produzindo em larga escala, mas vendendo com desvantagem — refém de um modelo político que não compreende sua força.

Escute o aúdio de Celso Ricardo.