Eleições municipais: anatomia de uma queda

Eleições municipais: anatomia de uma queda
Publicado em 14/10/2024 às 16:11

“As eleições gerais não medem corretamente a força política dos partidos por causa das várias influências burguesas, mas servem como um censo para indicar como as forças populares estão se desenvolvendo.” (Carta de Friedrich Engels a August Bebel, 28 de outubro de 1884)

O processo eleitoral não deve ser encarado como fenômeno político isolado: como todo fato social, tem causas e, por seu turno, gera consequências.

Cada eleição é única, assevera o Conselheiro Acácio de plantão, e as dinâmicas locais e nacional são distintas entre si; mas é certo que o controle de prefeituras e câmaras municipais pela direita, em todos os seus matizes, dos hidrófobos em ascensão aos fisiológicos de sempre, produzirá efeitos que se farão sentir nas eleições presidenciais de 2026, cada vez mais próximas. E na eleição do próximo Congresso.

É desnecessário pôr de manifesto o cenário do recesso ideológico-político da esquerda brasileira, de que decorre, de modo natural e inequívoco, o desastre eleitoral. Mas cabe delinear o quadro da clamorosa derrota deste ano: recuo no Nordeste (destacando-se a derrota contundente em Salvador, por W.O.); em Minas Gerais (destacando-se o desastre em Belo Horizonte); e consolidação da direita nos três estados do Sul. Desastre eleitoral no ABC paulista e nas grandes concentrações eleitorais do interior de SP, como Campinas e Araraquara. Na capital paulista, onde obtivemos nosso mais importante desempenho (o segundo turno com Guilherme Boulos) — maior cidade da América do Sul, maior concentração industrial, cultural e tecnológica, onde Lula venceu em 2022 — nada menos do que 60% do eleitorado votaram com as duas facções da extrema-direita.

Vingança bandoleira – Fustigada pelo desejo de vindita do coronel Arthur Lira contra o STF (quando este age corretamente), a CCJ da Câmara dos Deputados – de composição lamentável, com raras e honrosas exceções – acaba de aprovar projetos que confrontam cláusulas pétreas da Carta de 1988 como a limitação dos poderes do Judiciário. O bando conta com o esperável endosso do plenário da Casa, bem como da rebaixada oposição instalada no Senado. Assim, vai se consolidando no País o golpe de um parlamentarismo de fato, sem audiência constitucional e sem a homologação da soberania popular (que sempre o rejeitou). Um parlamentarismo, em suma, sem amarras, sem responsabilidade e sem vergonha.